O que é um romance?

Um romance é aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema… Não vejo por que é que essas coisas hão-de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. Bom, mas isto é mais um pressentimento que uma certeza, que o início de uma teoria… É uma interrogação. O meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso… é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras. A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto…

Al Berto, in “Entrevista à revista Ler (1989)”

Um homem simples

Carlos Fernandes saía sempre de casa com o sobretudo pelas costas. Fosse inverno ou verão. E sempre a arrastar os pés como se tivesse mais de noventa anos. E tinha. Era um homem que usava pendurado no olhar a alegria de ter sido republicano e ajudado a derrubar a monarquia. Orgulhoso, também, da sua arte de industrial de calçado, num tempo em que os sapatos eram feitos à medida, atendendo à morfologia dos pés de cada pessoa. A sua vida  consumia-se a trabalhar na oficina, de sol a sol, e pela noite dentro se preciso fosse. Ao domingo à tarde jogava umas partidas de sueca na taberna próximo de casa. Ao longo da vida não acumulou nada. Não nascera com essa ambição. Orgulhava-se apenas do seu trabalho, exigindo a si próprio, e a quem com ele trabalhava, qualidade no serviço.

A leitaria

Na leitaria, as mesas estavam quase todas ocupadas pelos clientes habituais. Um jornal, em cima da mesa, apertado na régua de madeira, esperava que alguém decidisse pegar-lhe. Ler o Heraldo de Lisboa é uma das minhas rotinas diárias mal saio à rua, antes de ir para o escritório. Através da montra aprofundei o contacto com o movimento da cidade. Lisboa encanta-me mesmo quando a realidade que nela se vive me desencanta. Sou sensível aos seus cheiros e à sua luz, aos pregões e à maresia que, em dias de brisa, sobe do Tejo. Funcionários de rosto inexpressivo dirigiam-se para os bancos e repartições públicas, num ritmo de passada imposto pela rotina. O pregão de um ardina ecoou dentro da leitaria. Era uma voz de criança enrouquecida pelo excesso de uso e pela friagem das madrugadas à porta das oficinas gráficas. Logo a seguir, chegou-me o chiar do rodado de um eléctrico da Carris. Buzinadelas e outros sons difíceis de interpretar completavam a melodia desse início de manhã. A cidade saudava o dia luminoso. Dia de Verão, a prometer canícula lá mais para a tarde. Decidi pegar no Heraldo com a ponta dos dedos, como se fosse um bicho sarnento. Interessava-me, sobretudo, a página dos Sports com o comentário dos jogos de futebol desse domingo. Em destaque aludia-se à vitória de José Maria Nicolau no tradicional Porto – Lisboa, em ciclismo, nesse ano de 1935, repetindo a proeza do ano anterior. Folheei mais umas páginas. As notícias nem sempre me enlevam e receei toldar ainda mais o humor desastrado com que acordara. No canto superior direito da primeira página, uma reportagem com um título em letras capitulares, noticiava A estranha morte do professor Cartago. Desconhecia quem fosse. Pareceu-me nome de prestidigitador. Imaginei-me no Coliseu assistindo a um espectáculo de circo, ouvindo o mestre-de-cerimónias anunciar: O grande ilusionista, Professor Cartago, oferece-nos as suas magias e ilusões. Palmas, por favor! Enfim, se o fulano tinha falecido as palmas eram abusivas. O melhor era rezar-lhe pela alma. 

António Garcia Barreto in «Balada do Jardim de Pedras» (obra registada no IGAC)